Com bolsas de até R$ 1,5 mil e cursos técnicos gratuitos, programas de capacitação impulsionam recomeço profissional em regiões que recebem novos investimentos industriais
07 março, 2026 - 08h12
Mãe de três filhos — de 3, 9 e 11 anos —, Laura enfrenta uma rotina intensa. Dois deles são autistas, o que exige dedicação constante.
Por: Redação Notícias do Cerrado
A expansão da indústria de base florestal em Mato Grosso do Sul tem aberto portas para um público que historicamente enfrentou dificuldades para se manter no mercado de trabalho: mulheres que interromperam a carreira para cuidar da família.
Com a demanda crescente por mão de obra qualificada, programas de capacitação técnica oferecidos pelo Senai têm se consolidado como caminho de retomada profissional em cidades como Três Lagoas, Paranaíba, Inocência e Água Clara.
A iniciativa reúne cursos gratuitos em áreas industriais estratégicas, com formação em automação, eletrotécnica, logística, mecânica e química. Em alguns casos, os estudantes recebem bolsas mensais de até R$ 1.500, incentivo que permite dedicação integral à qualificação.
O movimento ocorre justamente em regiões que concentram novos investimentos industriais, sobretudo no setor de papel e celulose, um dos motores econômicos do Estado.
Da rotina doméstica ao sonho da indústria
Depois de décadas dedicadas à família, a dona de casa Andréia Cristina Clemente Souza decidiu voltar a estudar aos 52 anos.
Ela ingressou no curso técnico de papel e celulose do programa “Abrace este Projeto”, parceria entre Senai e a empresa Arauco, em Três Lagoas.
Natural de Ribeirão Preto (SP), Andréia mudou-se para Mato Grosso do Sul por causa do trabalho do marido, profissional com mais de três décadas de experiência na indústria. A família ainda passou uma temporada no Maranhão antes de retornar ao Estado, novamente impulsionada pelas oportunidades no setor.
Durante anos, ela se dedicou exclusivamente à casa e à criação dos três filhos — hoje adultos, com idades entre 23 e 30 anos.
“Durante muito tempo fui dona de casa e motorista oficial da família. Fiz de tudo até os meninos andarem com as próprias pernas”, conta.
Apesar da proximidade com o ambiente industrial, a própria carreira acabou ficando em segundo plano. Andréia chegou a cursar técnico em contabilidade, trabalhou na área de recursos humanos e até foi aprovada no vestibular da Fuvest para Engenharia Elétrica, mas abriu mão das oportunidades diante das demandas familiares e da falta de rede de apoio.
“Eu tinha uma frustração de não ter feito alguma coisa por mim”, afirma.
Com os filhos independentes, decidiu retomar um antigo projeto pessoal: ingressar na indústria. Mesmo assim, o retorno à sala de aula trouxe insegurança inicial.
“Achei que ficaria meio de lado por causa da idade, mas a turma acabou sendo muito acolhedora.”
Agora, a cada módulo concluído, ela se aproxima do objetivo de iniciar uma nova etapa profissional.
“É algo que desejo muito realizar e não vou abrir mão por nada no mundo.”
Qualificação reacende esperança para mães atípicas
Para outras mulheres, os cursos representam não apenas qualificação, mas a possibilidade de reconstruir trajetórias interrompidas por desafios familiares.
Em Água Clara, a moradora Laura Ivanir Costa dos Santos, de 35 anos, encontrou no programa “Mulheres que Resolvem” uma oportunidade de retomar o sonho de construir uma carreira.
A iniciativa levou cursos gratuitos do Senai ao município por meio de uma carreta-escola. Em 2025, foram oferecidas capacitações em elétrica, hidráulica, pintura e mecânica.
Mãe de três filhos — de 3, 9 e 11 anos —, Laura enfrenta uma rotina intensa. Dois deles são autistas, o que exige dedicação constante.
Antes disso, ela tentou conciliar trabalho e maternidade. Já atuou em fazenda e em mercado, mas a realidade mudou após o diagnóstico do filho mais velho.

“Troquei doze vezes de babá em oito meses, porque ninguém queria ficar com ele”, relembra. “Passei por vários médicos até que foi constatado o autismo.”
Anos depois, Laura chegou a iniciar o curso de Biologia, mas precisou interromper os estudos após engravidar da terceira filha, que também recebeu diagnóstico de autismo.
Agora formada nos cursos de alvenaria e mecânica, ela volta a enxergar possibilidades no mercado de trabalho.
“No momento eu não trabalho, mas tenho vontade de voltar. As qualificações do Senai trazem esperança de recomeçar”, diz. “Muitas mães atípicas acabam parando no tempo e perdendo oportunidades.”
Diversidade cresce no chão de fábrica
Para a coordenação pedagógica do Senai, a presença feminina crescente em cursos técnicos industriais reflete uma mudança importante no perfil do setor.
Segundo a coordenadora Taís Caetano Gimenez, a diversidade contribui para ambientes de trabalho mais colaborativos e inovadores.
“A indústria tem buscado profissionais com diferentes perspectivas e habilidades, e as mulheres têm ocupado esses espaços com grande competência”, afirma.
Além da formação técnica, os cursos também criam redes de apoio entre as alunas.
Laura destaca que a convivência em sala trouxe ânimo e troca de experiências entre mulheres de diferentes gerações.
“Estudei com mulheres de 40, 50 e até mais de 60 anos. É importante que elas tenham perspectiva de vida”, diz. “Precisamos cuidar dos filhos, mas também ter nossa própria história.”
Em um momento de expansão industrial em Mato Grosso do Sul, iniciativas de qualificação como as do Senai indicam que, para muitas mulheres, o futuro profissional ainda pode começar — ou recomeçar — no chão de fábrica.
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