Projeto pioneiro lançado em Campo Grande prevê pagamento direto por serviços ambientais e ganha apoio do Ministério Público do Trabalho
25 março, 2026 - 17h18
Evento marcou o lançamento de projeto pioneiro no país que prevê pagamento de créditos de carbono diretamente a catadores de materiais recicláveis
Por: Redação Notícias do Cerrado
Campo Grande — A gestão de resíduos sólidos em Mato Grosso do Sul entrou em uma nova fase nesta quarta-feira (25), com o lançamento de um projeto inédito no país que transforma o trabalho de catadores em ativos ambientais negociáveis. A iniciativa, apresentada durante o I Simpósio de Resíduos Sólidos de Mato Grosso do Sul, propõe remunerar diretamente esses trabalhadores por meio de créditos de carbono — mecanismo até então distante da realidade da coleta seletiva.
Batizado de Reciclarbono, o projeto se ancora no conceito de “carbono evitado” para converter em valor financeiro o impacto ambiental positivo gerado pela triagem e destinação correta de resíduos recicláveis. Na prática, o volume de material que deixa de seguir para aterros sanitários passa a ser mensurado, certificado internacionalmente e transformado em crédito de carbono, criando uma nova fonte de renda para a base da cadeia da reciclagem.
A proposta é resultado de articulação entre instituições públicas, sistema de justiça e iniciativa privada, com uso do Sistema de Logística Reversa (SISREV) como ferramenta de cálculo e rastreabilidade dos resíduos.
A criação do Reciclarbono dialoga diretamente com uma das principais lacunas da política de resíduos no país: a baixa remuneração dos catadores, apesar de seu papel central na sustentabilidade urbana. Em Campo Grande, por exemplo, esses trabalhadores já realizam a triagem de resíduos recicláveis — atividade essencial para o funcionamento do sistema — sem receber pagamento específico pelo serviço.
O Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul (MPT-MS), que participou do simpósio, atua para mudar esse cenário. O órgão mantém negociação com o município, em parceria com o Ministério Público Estadual (MPMS), para formalizar a contratação de associações e cooperativas de catadores na Unidade de Triagem de Resíduos (UTR), no bairro Dom Antônio Barbosa.
A proposta prevê remuneração direta pela separação dos resíduos, reconhecendo o serviço como atividade econômica estruturante e assegurando condições mínimas de dignidade laboral a dezenas de famílias que dependem da reciclagem.
A atuação do MPT-MS integra o projeto nacional “Inclusão Socioprodutiva de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis”, que busca fortalecer a organização da categoria e induzir políticas públicas nos municípios. Entre as estratégias está o incentivo à formalização de contratos — possibilidade já prevista na legislação brasileira, que dispensa licitação para contratação de cooperativas de catadores devido à relevância social e ambiental do serviço.
Além da articulação institucional, o Ministério Público do Trabalho também tem recorrido a instrumentos judiciais, como ações civis públicas, em casos de descumprimento das normas, especialmente no que se refere à saúde, segurança e condições de trabalho.
O lançamento do Reciclarbono ocorre em um momento de intensa mobilização ambiental em Campo Grande, que sedia até domingo (29) a COP 15 de Espécies Migratórias, reunindo representantes de cerca de 130 países. A abertura do simpósio contou com a presença do secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco.
O encontro consolidou um espaço de diálogo entre poder público, setor privado e terceiro setor, com foco em soluções sustentáveis para desafios urbanos crescentes — entre eles, o financiamento da gestão de resíduos e a inclusão produtiva.
Com o avanço do crédito de carbono sobre novas áreas da economia, a reciclagem passa a ocupar posição estratégica. E, pela primeira vez, coloca os catadores no centro de um mercado que pode transformar impacto ambiental em renda direta.
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