Entre livros, renúncias e coragem, Drª Paula Regina de Oliveira Gonçalves transformou a própria história em inspiração para mulheres do interior que sonham ocupar espaços de poder e dignidade.
07 maio, 2026 - 17h20
Dr.ª Paula Regina ao lado do Defensor Público-Geral Pedro Paulo Gasparini no dia da posse. (FOTO: Arquivo)
Reportagem Especial: Rodrigo dos Santos/Notícias do Cerrado
No dia 5 de março, uma nova página começou a ser escrita na trajetória da Dr.ª Paula Regina de Oliveira Gonçalves. Aos 44 anos, a sul-mato-grossense tomou posse como defensora pública do Estado de Mato Grosso do Sul, carregando na bagagem não apenas anos de estudo e dedicação, mas também a sensibilidade de quem acredita na Justiça como instrumento de transformação social. Até então assessora jurídica na comarca de Dourados, Paula agora passa a integrar a Defensoria Pública do estado onde construiu sua história, realizando um sonho que ultrapassa a conquista profissional e se transforma em símbolo de perseverança, pertencimento e compromisso com aqueles que mais precisam ser ouvidos.
Drª Paula é motivo de orgulho de muita gente, em especial da mãe Dona Alzira, da filha e do irmão Drº Lázaro Antônio de Oliveira Gonçalves, servidor concursado em Ribas do Rio Pardo, que teve na irmã a inspiração pelo direito.
“Com certeza foi uma das minhas inspirações. Ver a transformação que o estudo, de modo geral, fez na vida dela foi muito importante pra que eu pudesse escolher o direito também”, disse o advogado
Entre as ruas tranquilas de Ribas do Rio Pardo, onde tantas histórias começam de maneira simples, nasceu também a trajetória de uma menina que aprendeu cedo que o futuro se constrói no silêncio da persistência. Antes da toga, dos tribunais e da missão de defender os mais vulneráveis, existia apenas Paula. Uma jovem de escola pública, filha de militar, criada entre os valores do trabalho, da disciplina e da esperança de que a educação poderia abrir portas antes reservadas apenas a poucos.
Foi no Fórum da comarca de Ribas do Rio Pardo que ela teve os primeiros encontros com o universo jurídico. Ainda com o ensino médio completo, trabalhando como voluntária, observava processos, aprendia rotinas e descobria, pouco a pouco, que a Justiça poderia ser mais do que uma profissão. Poderia ser instrumento de transformação social. Anos depois, aquela adolescente decidida, se transformou na jovem mulher que conciliava estudo, trabalho, maternidade, tarefas domésticas e renúncias, e com isso pisaria em um dos espaços mais relevantes do sistema de Justiça brasileiro como Defensora Pública.
Mas sua caminhada jamais foi feita apenas de conquistas. Houve dores silenciosas, noites de exaustão, dificuldades financeiras, crises de saúde e momentos em que desistir parecia um caminho possível. Ainda assim, Paula escolheu permanecer. Escolheu continuar estudando quando o corpo pedia descanso. Escolheu acreditar quando ouviu críticas e descrédito. Escolheu seguir porque compreendeu que seu sonho já não pertencia apenas a ela, mas também às mulheres simples do interior, mulheres em geral, jovens, que precisavam enxergar, em alguém parecido consigo mesmas, a prova viva de que é possível chegar.
CONFIRA A ENTREVISTA
NOTÍCIAS DO CERRADO: Quem é a Drª Paula ?
A Dra. Paula é o resultado de uma longa trajetória de trabalho e estudo, insistência e resiliência, que, na atualidade, além de desempenhar suas funções da melhor forma possível, busca incentivar outras pessoas a não desistirem de seus sonhos.
O que Ribas do Rio Pardo representa na sua formação pessoal e profissional?
Vivi em Ribas do Rio Pardo de 1991 a 2001. Foi aí que passei o final da minha infância e toda a minha adolescência, saindo da cidade apenas para assumir o concurso de escrevente judicial no Tribunal de Justiça do Estado de MS. Na minha formação pessoal, a cidade representa o lugar onde aprendi a me relacionar com o próximo, tendo sido muito importantes as amizades que constituí no período em que aí residi. Na minha formação profissional, a cidade representa o início da minha trajetória na carreira jurídica, pois foi no fórum da comarca de Ribas do Rio Pardo que, ainda apenas com o nível médio completo, tive contato com os primeiros processos, atuando como voluntária para aprender o trabalho que, na sequência, exerceria na comarca de Água Clara, onde tomei posse como servidora do Poder Judiciário Estadual.
Houve pessoas ou referências na família que despertaram em você o senso de justiça e serviço público?
Sou filha de militar, então aprendi desde cedo que o serviço público me traria estabilidade profissional e, por isso, posso considerar meu pai como uma das pessoas da família que despertaram em mim o desejo de ingressar no serviço público. Além disso, minha tia Luzia foi servidora do Poder Judiciário do Estado de Mato Grosso do Sul, onde exerceu a função de auxiliar de serviços gerais e, além de me incentivar a estudar para me tornar servidora pública, como ela, me ensinou a trabalhar com ética e comprometimento com o serviço público.
Quando surgiu o sonho de seguir a carreira jurídica e se tornar defensora pública?
Quando ingressei no Poder Judiciário sul-mato-grossense, como escrevente judicial, recebi o incentivo do juiz com quem trabalhei durante mais de 20 anos, Dr. Alessandro Leite Pereira, para que iniciasse a faculdade de Direito. Confesso ter iniciado a faculdade com a intenção de ser magistrada, mas, a partir do momento em que comecei a estudar para aprovação no Exame de Ordem, me identifiquei com a atividade de peticionar, de buscar a implementação dos direitos dos indivíduos, razão pela qual passei a me interessar pela carreira da Defensoria Pública, cujos integrantes exercem papel determinante na busca da concretização dos direitos das pessoas em situação de vulnerabilidade.
Quais foram os maiores desafios até alcançar essa conquista?
Conciliar o estudo com o trabalho, o exercício da maternidade, das tarefas domésticas e da vida privada como um todo.
Houve momentos em que pensou em desistir? O que a fez continuar?
Em 2017, tive um sério problema de saúde e, nesse momento, pensei em desistir porque concluí que estava dedicando muito tempo da minha vida aos estudos e ao trabalho, deixando um pouco de lado os cuidados com a minha própria saúde. Todavia, superado o referido problema, identifiquei que estudar, para mim, não era uma opção, e sim uma obrigação decorrente do cargo que eu exercia, como assessora jurídica de um juiz, e que, se eu quisesse melhorar a minha vida e a vida das pessoas que estavam no meu entorno, principalmente da minha filha, eu teria que permanecer conciliando as minhas funções em busca da realização do sonho de ser membro de uma instituição integrante do sistema de justiça.
Que sacrifícios e renúncias fizeram parte desse caminho?
Deixei de aproveitar alguns momentos com a minha filha, demais familiares e amigos para estudar, deixando de comparecer a eventos sociais e também tendo que optar entre adquirir produtos do meu interesse pessoal ou cursos, livros e o custeio de viagens e inscrições para realização de provas de concursos.
O que significa, para você, ser Defensora Pública?
Ser Defensora Pública, para mim, é a realização de um sonho. É a possibilidade de dar voz às pessoas que não conseguem, sozinhas, lutar pela concretização dos seus direitos.
Sua trajetória pode inspirar meninas e mulheres. Que mensagem gostaria de deixar para elas?
Que nunca desistam dos seus sonhos! Que não deixem nenhum obstáculo, crítica ou dificuldade impedi-las de permanecer na busca pela realização de seus objetivos pessoais e profissionais. Cada pessoa tem o seu ritmo de vida, a sua trajetória, e isso deve ser respeitado. Não podemos medir os nossos esforços e as nossas conquistas pelo desempenho dos outros. Devemos focar nossas forças no caminho necessário para obtenção daquilo que buscamos de melhor para nós e para as pessoas que nos cercam.
Como é, para uma mulher que saiu do interior, ocupar hoje um espaço de tanta relevância?
É gratificante e assustador. Não só o fato de ter saído do interior, mas principalmente o fato de sempre ter sido aluna de escola pública numa pequena cidade do interior é algo que me diferencia de muitos outros profissionais que vêm de famílias abastadas e tiveram a possibilidade de estudar em colégios particulares renomados, frequentar os melhores cursos preparatórios e ter acesso aos melhores materiais de estudo disponíveis no mercado. Além disso, o fato de ser mulher, com mais de 40 anos de idade, carrega o peso de quebrar estereótipos de que a vida possui marcos temporais fixos para o atingimento de objetivos pessoais e profissionais.
De que forma gostaria de contribuir ainda mais para a sociedade através da sua atuação?
Tenho a intenção de mostrar às pessoas o quanto é possível, por meio da educação, transformarmos a nossa realidade social e ocuparmos espaços inicialmente ocupados apenas por uma elite que agora passa a conviver com pessoas das mais distintas origens sociais, pluralizando os espaços de poder e de decisão acerca dos mais variados assuntos que interferem na vida da sociedade.
Se pudesse conversar hoje com a menina Paula, no início da caminhada, o que diria a ela?
Que a gente conseguiu!!! O caminho foi longo e não foi fácil. Ouvimos críticas e palavras de descrédito, mas também recebemos muito incentivo e cruzamos pelos caminhos de pessoas maravilhosas que sempre acreditaram na gente mais do que nós mesmas. E que foi muito importante não desistir para poder inspirar pessoas simples como nós a permanecer na busca por seus objetivos.
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