Antes da fumaça: prevenção encurta a distância entre o fogo e a resposta no Pantanal

Mato Grosso do Sul ampliou bases, capacitou brigadistas e reforçou o monitoramento para conter as chamas antes que elas ameacem comunidades, propriedades e o meio ambiente

20 agosto, 2026 - 09h58


Foto: Divulgação

Para o major Eduardo Rachid Teixeira, subdiretor de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul, o combate aos incêndios no Pantanal precisa começar quando ainda não há fogo no horizonte.

“As ações de prevenção são extremamente importantes e devem ser realizadas nos períodos sem risco de incêndio. Esse planejamento permite que as medidas sejam executadas com tempo hábil e segurança, sem a urgência imposta por uma ocorrência de incêndio florestal ativo”, afirma.

É nesse período que brigadistas verificam equipamentos, abrem aceiros, mapeiam acessos e acompanham as condições da vegetação, da umidade e do vento. Sob a condução do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, Mato Grosso do Sul passou a concentrar sua estratégia na prevenção, no monitoramento e no combate aos focos ainda no início, antes que as chamas alcancem grandes proporções.

Os resultados de 2025 dimensionam essa mudança. O Estado registrou 1.844 focos de calor, o menor número desde o início da série histórica, em 1998. A área queimada caiu para 202.678 hectares, depois de superar 2,3 milhões de hectares em 2024.

A redução não significa que o risco tenha desaparecido. O Pantanal continuou sob pressão hídrica, e as secas prolongadas ainda ressecam a vegetação, dificultam o acesso pelos rios e ampliam o material disponível para alimentar as chamas. Os números de 2025 resultaram da combinação entre condições climáticas menos extremas, preparação, monitoramento e resposta rápida.

Preparação antes do período crítico

Entre as ações preventivas estão a aquisição e a manutenção de equipamentos, a construção de aceiros, o mapeamento e a abertura de acessos a pontos críticos, além do treinamento das pessoas envolvidas na proteção das áreas.

Segundo o major Teixeira, realizar esse trabalho antecipadamente aumenta a possibilidade de controlar o fogo quando ele ainda ocupa uma área pequena.

“Quando a prevenção é bem executada, aumentam as chances de controlar o incêndio ainda no estágio inicial, preservando vidas, protegendo o patrimônio, reduzindo os danos ambientais e diminuindo os custos da operação”, destaca.

No Pantanal, a distância entre um foco e a equipe capaz de combatê-lo pode ser decisiva. Muitas propriedades e comunidades são alcançadas apenas por estradas de terra, rios ou pistas particulares. Ventos fortes, altas temperaturas e baixa umidade também favorecem a rápida propagação das chamas.

“Nesse cenário, a prevenção torna-se ainda mais importante. A existência de aceiros, acessos previamente definidos e uma comunicação rápida e eficiente são fatores decisivos para que a resposta ocorra com maior eficiência”, explica o major.

A diferença entre combater um foco no início e enfrentar um incêndio fora de controle aparece tanto na área destruída quanto no risco imposto às equipes.

“Quando o foco é identificado no estágio inicial, a área atingida é menor, o comportamento do fogo é mais previsível e a contenção pode ser realizada com menor emprego de recursos e menor exposição ao risco”, afirma Teixeira.

Quando o incêndio se espalha, acrescenta o oficial, as chamas passam a exigir mais efetivo e equipamentos, aumentando os riscos para bombeiros, moradores, fauna, patrimônio e meio ambiente.

Brigadas locais ganham tempo

Como o Corpo de Bombeiros nem sempre consegue chegar imediatamente às áreas remotas, produtores, trabalhadores e moradores costumam oferecer a primeira resposta.

No primeiro semestre de 2025, o Corpo de Bombeiros realizou 18 ações e formou 600 brigadistas voluntários. Outros 250 bombeiros militares participaram de cursos de especialização, totalizando 850 pessoas capacitadas.

Os treinamentos envolveram combate a incêndios florestais, operação de drones, condução de embarcações, utilização de veículos 4×4, resgate de animais e comando de incidentes.

A formação das brigadas parte do entendimento de que as pessoas que vivem ou trabalham nas áreas rurais estão mais próximas dos focos no momento em que as chances de contenção ainda são maiores.

“A brigada local não substitui o Corpo de Bombeiros. Sua função é ganhar tempo e conter o avanço das chamas até a chegada das equipes especializadas”, explica Riedel.

A orientação à população e aos produtores é manter as medidas preventivas durante todo o ano e evitar atividades capazes de gerar focos nos períodos de condições climáticas críticas.

“Sempre que necessário, deve-se suspender o uso de equipamentos ou qualquer ação que possa gerar fontes de ignição”, recomenda o major Teixeira.

Bases reduzem horas de deslocamento

A Operação Pantanal manteve 11 bases avançadas em regiões estratégicas. A estrutura aproximou bombeiros, viaturas, embarcações e equipamentos de áreas que anteriormente exigiam horas de deslocamento.

Para a operação de 2025, o Governo do Estado destinou R$ 34,8 milhões, com previsão de mobilizar até 177 bombeiros por dia durante os meses mais críticos da estiagem.

A orientação de Riedel foi manter estrutura, recursos e planejamento também fora dos períodos de maior risco. “A estratégia busca evitar que a preparação dependa apenas da gravidade de cada temporada ou comece quando o incêndio já está em andamento”, explica o governador.

Manejo reduz vegetação acumulada

A política estadual também passou a incorporar o uso planejado do fogo como instrumento de prevenção. Em 2025, o Corpo de Bombeiros realizou uma queima prescrita no Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, reduzindo parte da vegetação seca acumulada antes da estiagem.

A prática integra o Manejo Integrado do Fogo e exige autorização, delimitação da área, acompanhamento das condições meteorológicas e presença de equipes treinadas.

“Não se trata de liberar queimadas, mas de empregar o fogo sob condições controladas para diminuir o material combustível e reduzir o risco de incêndios maiores”, pontua Riedel.

Recursos chegam às organizações locais

A prevenção também ganhou financiamento específico por meio do PSA Brigadas, modalidade do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais.

O edital destinou R$ 14 milhões para 2025 e 2026. Das 28 propostas apresentadas, foram selecionados 17 projetos de nove entidades, com valores entre R$ 75 mil e R$ 500 mil.

Os projetos preveem abertura de aceiros, instalação de tanques de água, compra de equipamentos, monitoramento, capacitação, educação ambiental e resgate de animais.

“O programa fortalece organizações e comunidades que conhecem os caminhos, os rios e as áreas mais vulneráveis, evitando que toda resposta dependa de equipes deslocadas dos centros urbanos”, destaca o governador.

A participação dessas organizações aproxima a prevenção das pessoas que conhecem o comportamento do território e conseguem identificar mudanças nas condições ambientais antes que o fogo avance.

Tecnologia ajuda a antecipar o perigo

Em abril de 2025, o Corpo de Bombeiros reativou o Centro Integrado de Comando e Controle da Operação Pantanal. A unidade acompanha focos de calor, imagens de satélite, condições meteorológicas e a movimentação das equipes em campo.

A rede meteorológica também começou a ser ampliada. Em maio, uma nova estação passou a transmitir dados da região da Nhecolândia, em Corumbá. O planejamento prevê oito estações para monitorar chuva, temperatura, umidade e vento na planície pantaneira.

“As informações ajudam no combate ao fogo e no planejamento de produtores, pesquisadores e órgãos públicos diante de secas e cheias”, reforça Riedel.

Os dados permitem que as equipes identifiquem áreas de maior risco, organizem recursos e acompanhem mudanças que podem favorecer a propagação das chamas.

Estrutura precisa permanecer

Embora a recuperação parcial da água tenha reduzido o risco em algumas regiões, o Pantanal permanece vulnerável às secas prolongadas e aos efeitos do acúmulo de vegetação seca.

A próxima etapa será manter as bases avançadas, ampliar as brigadas, concluir a rede meteorológica e transformar os recursos do PSA Brigadas em ações permanentes no território.

Para o major Eduardo Rachid Teixeira, essa preparação precisa ocorrer antes que as condições se tornem críticas. É no período de céu limpo, quando ainda há tempo para abrir acessos, capacitar pessoas e revisar equipamentos, que começa a possibilidade de impedir uma nova tragédia.

Consolidar essa estrutura significa proteger a  fauna e a vegetação do Pantanal, mas também casas, rebanhos, pousadas, escolas,  empregos e famílias que vivem longe dos centros urbanos — pessoas para quem a  distância entre um pequeno foco e um incêndio fora de controle pode ser medida  em poucos minutos.

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