Tavinho Rabelo: 80 anos de uma voz que virou parte da história de Ribas do Rio Pardo

Aos 80 anos, radialista e servidor público aposentado celebra uma vida dedicada ao rádio, à família e ao serviço à comunidade que escolheu para viver

12 setembro, 2026 - 10h57


Tavinho Rabelo completa 80 anos; (FOTO Notícias do Cerrado)

Por: Rodrigo dos Santos | Notícias do Cerrado |

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Há pessoas que passam por uma cidade. Outras, porém, tornam-se parte dela.

Algumas deixam fotografias, outras deixam documentos, obras ou nomes gravados em placas. Há aquelas que deixam algo ainda mais difícil de explicar: deixam a própria voz espalhada pela memória de uma gente. Em Ribas do Rio Pardo, uma dessas vozes tem nome, sobrenome e uma história que atravessa décadas: Otávio Gonçalves Rabelo, o Tavinho Rabelo.

Neste sábado, 12 de setembro de 2026, quando completa 80 anos, Tavinho não celebra apenas mais uma primavera. Celebra oito décadas de vida e, especialmente, quase 46 anos de história construída em Ribas do Rio Pardo, município que o recebeu em 20 de outubro de 1980 e que, mais tarde, também o reconheceria oficialmente como filho da terra.

A história de Tavinho começa em Aquidauana, onde nasceu em 12 de setembro de 1946. Mas foi em Ribas que sua voz encontrou morada. Chegou inicialmente para trabalhar como relojoeiro, atividade que exigia precisão, paciência e atenção aos detalhes. Mas havia dentro dele outro mecanismo funcionando, movido por uma paixão que nenhum relógio seria capaz de marcar: o rádio.

Quando a voz começou a alcançar a cidade

 Foi assim que o relojoeiro foi cedendo espaço ao comunicador. Tavinho tornou-se pioneiro nos serviços de rádio em Ribas do Rio Pardo e esteve à frente da instalação do primeiro serviço de som da cidade, o Alto-falante Cruzeiro do Sul.

Antes das redes sociais, antes da internet, antes de o celular caber na palma da mão, havia o alto-falante. E havia uma voz.

Pelas ruas, casas, comércios e fazendas, a comunicação tinha outro ritmo. A notícia chegava pela voz humana. A música atravessava distâncias. Um anúncio podia reunir pessoas. Uma mensagem podia encontrar alguém que estava longe. E Tavinho estava ali, ajudando a construir esse tempo.

Seu nome passou a se confundir com a própria história da radiodifusão local. Não apenas porque falava ao microfone, mas porque entendia que comunicação era, acima de tudo, uma forma de estar perto das pessoas.

Ao longo dos anos, passou pela extinta Nossa 104,9 FM, pelo Sistema Riopardense de Comunicação Ltda., Rádio 90,7 FM, e, mais recentemente, pela Rádio Pró-Rio FM 98,5. Mudaram os prefixos, as estruturas, os equipamentos e os tempos. A voz, porém, permaneceu.

Um rádio feito de criatividade, música e memória

 Tavinho nunca foi um comunicador preso apenas ao microfone. Seu rádio tinha personalidade.

Criou personagens, inventou maneiras próprias de conversar com os ouvintes e encontrou na música regional uma das principais formas de criar identificação com o público. As raízes sertanejas, a cultura sul-mato-grossense e as canções que atravessaram gerações ganharam espaço em seus programas.

E havia um público que conhecia especialmente bem o seu jeito de fazer rádio: o homem e a mulher da fazenda.

Nas primeiras horas do dia, quando o campo começava a despertar e o trabalho já se anunciava, a voz de Tavinho entrava pelas casas, pelas cozinhas, pelas varandas e pelas sedes das propriedades rurais. Era companhia para quem acordava cedo. Era informação, música e conversa para quem começava mais um dia de trabalho.

Talvez por isso o rádio de Tavinho tenha criado algo que nenhuma tecnologia consegue fabricar: intimidade.

O comunicador que sabia que rádio é gente

 Para quem dividiu microfone, estúdio e rotina com Tavinho, a lembrança não é apenas profissional. É afetiva.

O radialista Pedro Claro, que teve a oportunidade de trabalhar ao lado de Tavinho, destaca justamente essa dimensão humana do comunicador e sua importância para a história da comunicação em Ribas do Rio Pardo.

Radialista Pedro Claro, Tavinho Rabelo e o empresário do Rádio Najaro Machado

“Trabalhar com Tavinho foi conviver com alguém que não enxergava o rádio apenas como profissão. Ele tinha paixão pelo que fazia e conhecia o seu público. Sabia conversar com quem estava na cidade e, principalmente, com quem estava no campo. Tavinho ajudou a construir uma identidade para o rádio de Ribas e faz parte da história da comunicação de Mato Grosso do Sul.”

A trajetória de Tavinho também revela uma característica rara: a capacidade de permanecer relevante mesmo quando o mundo muda.

Ele atravessou gerações diante de um microfone. Viu o rádio sair dos grandes aparelhos para os pequenos, depois chegar aos carros, aos computadores e, finalmente, aos celulares. Viu a comunicação se tornar instantânea. Mas nunca abandonou aquilo que fazia sua voz ser reconhecida: o jeito simples, próximo e humano de conversar.

E talvez esteja justamente aí o segredo de sua longevidade. Tavinho nunca falou apenas para uma multidão. Falou para pessoas.

Uma vida inteira também atrás do balcão do serviço público

 Mas a história de Tavinho não pode ser contada somente pelas ondas do rádio.

Durante 38 anos, ele também serviu ao município como funcionário público da Prefeitura de Ribas do Rio Pardo, onde exerceu a função de Fiscal no setor de Tributos, até sua aposentadoria.

De um lado, o microfone. Do outro, o serviço público. Em ambos, uma característica permaneceu: o contato direto com as pessoas.

No serviço público, Tavinho conheceu histórias, necessidades e dificuldades de gente que muitas vezes precisava apenas de alguém disposto a orientar. E foi nesse caminho, longe dos holofotes, que realizou uma de suas missões mais silenciosas.

Ao longo dos anos, ajudou centenas de pessoas, especialmente na emissão de certidões de nascimento e na obtenção de documentos essenciais para o exercício da cidadania.

Não houve microfone anunciando essas ações. Não houve aplausos. Muitas vezes, sequer houve testemunhas.

Mas há vidas que ficam melhores porque alguém decidiu ajudar. E esse também é um legado.

Uma voz que também canta

 Quem conhece Tavinho sabe que sua relação com a música não termina quando o microfone é desligado.

Ao lado da esposa, Regina Maria da Rosa Rabelo, ele compartilha uma paixão especial pela música raiz. Os dois chegaram a cantar juntos em diversos eventos, levando ao público uma das canções mais emblemáticas de Délio e Delinha, O Sol e a Lua. A cena diz muito sobre o casal.

Porque há histórias de amor que se contam em palavras. Outras se contam em uma música cantada a dois.

Tavinho e Regina construíram uma família e uma vida compartilhada em Ribas. São pais de Meire Regina da Rosa Rabelo, 47 anos; Maira da Rosa Rabelo, 44; e Weverton Roger da Rosa Rabelo. Vieram nora, genros, netos e netas.

Vieram aniversários, encontros, dificuldades, alegrias e aquela sucessão de pequenos momentos que, somados, formam aquilo que chamamos de vida.

A família é, talvez, o maior programa que Tavinho já apresentou. E não tem hora para terminar.

O homem além do microfone

Quem olha apenas para o radialista talvez não conheça todas as faces de Tavinho.

Ele também esteve envolvido com a comunidade escolar e comandou a Associação de Pais e Mestres da Escola Estadual Dr. João Ponce de Arruda.

Participou do Rotary Club, onde prestou relevantes serviços à comunidade. Também colocou seu nome à disposição da população nas eleições municipais, sendo candidato a vereador em Ribas do Rio Pardo em duas oportunidades, em 2008, pelo DEM, e em 2012, pelo PRTB, quando ficou como suplente.

Sua participação na vida pública não nasceu da política partidária. Era anterior a ela.

Tavinho sempre foi um cidadão presente.

Um daqueles homens que gostam de saber o que acontece na cidade, conversar com as pessoas, participar, ajudar e estar onde a comunidade está.

E, quando não está envolvido com o rádio, com a família ou com os amigos, existe outra paixão que explica muito de sua personalidade: a pescaria.

Tavinho é pescador de verdade. Daqueles que têm barco, histórias de pescaria e disposição para passar horas diante da água. Porque talvez pescar também seja uma maneira de compreender o tempo.

E Tavinho entende de tempo.

Afinal, são 80 anos aprendendo a esperar, ouvir, conversar e contar histórias.

Cidadão riopardense por reconhecimento e por pertencimento

Em 2023, veio uma das homenagens que oficializaram algo que, para muitos moradores, já estava estabelecido havia décadas.

Por meio da Lei nº 1.349, de 22 de agosto de 2023, Tavinho Rabelo recebeu da Câmara Municipal o Título de Cidadão Riopardense.

O documento reconheceu formalmente aquilo que a convivência já havia escrito. Tavinho pode ter nascido em Aquidauana.

Mas Ribas do Rio Pardo entrou em sua história de tal maneira que hoje é impossível contar a história de uma sem encontrar a outra. Ele chegou em 1980. E ficou.

Ficou no rádio. Ficou no serviço público. Ficou nas escolas. Ficou nas entidades. Ficou nas pescarias. Ficou nas amizades. Ficou nas famílias que ajudou. Ficou, sobretudo, na memória de quem cresceu ouvindo sua voz.

 

Tavinho recebendo título de cidadão riopardense

Uma voz que virou patrimônio afetivo

O jornalista Rodrigo dos Santos destaca que a trajetória de Tavinho ultrapassa a dimensão profissional e se confunde com a própria formação da identidade comunicacional de Ribas do Rio Pardo.

“Tavinho Rabelo é daqueles personagens que não podem ser compreendidos apenas pelo currículo. Sua história precisa ser contada pela memória das pessoas. Ele ajudou a colocar Ribas para falar, ajudou a levar música, informação e companhia para dentro das casas e das fazendas e atravessou gerações diante de um microfone. Para quem trabalha com comunicação, olhar para a trajetória de Tavinho é reconhecer um pioneiro. Para Ribas, é reconhecer um homem que ajudou a construir parte da sua própria história.”

Há uma diferença entre ser conhecido e ser lembrado. Conhecidos, muitos são. Lembrados, poucos. Tavinho pertence ao segundo grupo.

Sua voz permanece na memória daqueles que acordavam cedo para ouvi-lo. Na lembrança dos companheiros de rádio. Nas histórias de quem trabalhou ao seu lado. Nas pessoas que receberam sua ajuda quando precisavam de um documento. Nos amigos das pescarias. Nos colegas do serviço público. Nos integrantes das entidades das quais participou. E, acima de tudo, dentro de sua própria casa.

Aos 80 anos, uma história que ainda está no ar

Hoje, aos 80 anos, Tavinho Rabelo continua sendo um homem do rádio. Mas sua história é maior do que o rádio.

É a história de um homem que chegou a Ribas do Rio Pardo como relojoeiro e acabou ajudando a marcar o tempo de uma cidade. Um homem que encontrou no microfone uma profissão, mas encontrou nas pessoas uma missão.

Um homem que passou décadas servindo ao município também atrás de uma mesa, entre documentos e tributos, e que, fora dela, ajudou silenciosamente quem precisava de cidadania.

Um homem que cantou ao lado da mulher que escolheu para a vida, criou filhos, viu a família crescer e hoje contempla netos e novas gerações. Um homem que participou da comunidade, serviu ao Rotary, esteve na educação, tentou representar a população na política e nunca deixou de ser, antes de tudo, um cidadão presente.

E talvez seja essa a maior beleza de sua história. Tavinho não construiu um legado de um único dia. Construiu aos poucos.

Microfone por microfone. Música por música. Amanhecer por amanhecer. Documento por documento. Amizade por amizade. Pescaria por pescaria. Ano após ano. Foram oito décadas de vida. E quase 46 anos de uma história que, em Ribas do Rio Pardo, ganhou outra dimensão. Porque existem vozes que desaparecem quando o rádio é desligado.

E existem vozes que continuam. A voz de Tavinho Rabelo continua. Continua na memória de uma cidade. Continua na história da radiodifusão de Ribas do Rio Pardo. Continua na lembrança de Mato Grosso do Sul. E continua, sobretudo, no coração de uma família que hoje tem todos os motivos para olhar para esse homem e dizer:

Obrigado, Tavinho.

Obrigado pelos 80 anos de vida.

Obrigado pelas décadas de serviço.

Obrigado pelas músicas.

Obrigado pelas histórias.

Obrigado pelas manhãs.

Obrigado pela companhia.

Obrigado por ter escolhido Ribas do Rio Pardo para chamar de casa.

E que a vida ainda lhe conceda muitos amanheceres, muitas pescarias, muitos encontros, muitos abraços e muitas histórias para contar. Porque algumas pessoas completam 80 anos.

Tavinho Rabelo completa 80 anos de história.

 

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