Da fábrica à vida cotidiana, celulose redesenha trabalho e renda em Três Lagoas

Há 16 anos no setor, trabalhador viu carreira, renda e família crescerem junto com a indústria; cadeia já movimenta bilhões entre fornecedores locais, mas desafio é transformar expansão econômica em empregos estáveis e riqueza que permaneça na cidade

22 setembro, 2026 - 16h48


Por: Redação
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Quando entrou em um processo seletivo do Senai, Eugênio Dias enxergava poucas possibilidades de construir uma carreira em Três Lagoas. Naquele momento, o comércio parecia praticamente o único caminho disponível. Um curso técnico de seis meses mudou o horizonte.

A formação abriu a porta para seu primeiro emprego no setor de celulose. Dezesseis anos depois, aos 42, Eugênio trabalha como operador na área de secagem da Suzano, constituiu família na cidade e olha para trás como quem reconhece que uma escolha profissional acabou definindo boa parte da própria vida.

“Entrei na empresa em 2010, quando ainda era a antiga Fibria. Antes disso, participei de uma seleção no Senai, passei na prova e fiz um curso técnico de seis meses. Depois fui contratado para a área florestal e, mais tarde, passei em outro processo seletivo para a área industrial, onde estou até hoje”, relembra.

Foi também em Três Lagoas que conheceu a estabilidade necessária para fazer planos. A esposa é do município e os dois filhos, um casal, nasceram na cidade.

“Estou neste ramo há 16 anos e, sem sombra de dúvida, foi uma das melhores escolhas que fiz na vida. Espero permanecer por mais 16 anos”, diz.

O impacto aparece também na renda. “Não posso ser hipócrita e dizer que tudo o que tenho hoje não é devido ao ramo da celulose.”

A trajetória de Eugênio ajuda a dimensionar uma transformação que, depois de mais de 15 anos de industrialização, ultrapassou os portões das fábricas. A cadeia da celulose espalhou seus efeitos por transportadoras, oficinas, empresas de engenharia e tecnologia, restaurantes, laboratórios, serviços de automação e uma extensa rede de fornecedores.

O desafio agora é fazer com que uma parcela cada vez maior das oportunidades geradas permaneça em Mato Grosso do Sul — tanto na forma de empregos qualificados quanto de contratos para empresas locais.

É uma das frentes defendidas pelo Governo do Estado sob a gestão de Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição. A estratégia procura combinar atração de investimentos, qualificação profissional e fortalecimento de fornecedores sul-mato-grossenses, num momento em que Três Lagoas já se consolidou como um dos principais polos industriais do setor.

Uma indústria que movimenta a cidade inteira

A primeira unidade da atual Suzano entrou em operação em Três Lagoas em 2009. A Eldorado Brasil iniciou a produção em 2012 e uma segunda linha da Suzano foi inaugurada em 2017.

Juntas, as plantas instaladas no município têm capacidade para produzir mais de cinco milhões de toneladas de celulose por ano.

É uma escala que exige muito mais do que trabalhadores diretamente envolvidos na produção. As fábricas precisam de manutenção, transporte, alimentação, segurança, limpeza, recursos humanos, tecnologia, peças e serviços ambientais.

Quanto maior a participação de empresas da região nesses contratos, maior também a possibilidade de que o dinheiro gerado pela indústria continue circulando na economia local.

Em 2025, 532 pequenas e médias empresas sediadas em Três Lagoas forneceram produtos ou serviços à Suzano. Segundo a companhia, esses negócios movimentaram R$ 1,7 bilhão.

O número ganha outra dimensão quando sai das planilhas. Um contrato industrial pode permitir que uma oficina contrate funcionários, que uma empresa de alimentação amplie sua cozinha ou que um prestador de serviços tenha receita suficiente para investir e planejar os próximos anos.

Para um pequeno empresário, entrar na cadeia de uma grande indústria pode significar também um salto de profissionalização. Exigências relacionadas à segurança, qualidade, regularidade fiscal e cumprimento de prazos obrigam fornecedores a aprimorar processos e podem abrir portas para outros clientes.

Essa oportunidade, porém, não está igualmente ao alcance de todos.

Falta de capital, documentação, estrutura administrativa e orientação ainda dificulta a participação de pequenos negócios. Sem condições para competir, empresas locais podem ver contratos gerados dentro de Três Lagoas serem assumidos por fornecedores de outros estados.

Para Riedel, a atuação do poder público precisa avançar justamente sobre esse ponto.

“O papel do Estado, nesse ponto, não se limita à atração das grandes fábricas. Inclui criar condições para que empresas locais se formalizem, ampliem sua capacidade e disputem parte dos contratos gerados pela industrialização”, afirma.

Segundo o governador, a medida do desenvolvimento não deve ser apenas o volume produzido ou exportado, mas também sua repercussão sobre a economia local.

“O resultado precisa ser medido não apenas pelo valor exportado, mas pelo número de fornecedores locais, pelos postos mantidos e pela renda que permanece circulando no município.”

O crescimento visto do balcão de uma pequena empresa

O empresário Romulo Ojeda Diogo acompanha essa transformação desde 2011. Há mais de sete anos com uma empresa em Três Lagoas, ele também mantém uma filial em Inocência.

O negócio atua no comércio varejista e possui um centro de distribuição de utensílios para bares, lanchonetes e alojamentos — atividades diretamente afetadas pelo aumento da população, das obras e da procura por alimentação e hospedagem.

Romulo situa a chegada da Eldorado Brasil e de outras empresas ao Distrito Industrial como um momento decisivo desse ciclo.

“A gente acompanha esse crescimento desde 2011, com a implantação da Eldorado e de outras empresas. Foi quando começou esse grande desenvolvimento do setor de celulose, e desde então Três Lagoas segue evoluindo”, afirma.

Na avaliação do empresário, a expansão industrial aumentou a circulação de renda e abriu espaço para novos negócios. Ele também enxerga na retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados, a UFN3, outra possível fonte de demanda.

“O crescimento gera demanda por moradias, comércio e serviços, fortalecendo toda a economia local”, diz.

A expansão já ultrapassa os limites de Três Lagoas. Em 2023, Romulo abriu uma filial em Inocência, onde a construção da fábrica de celulose da Arauco acelerou a movimentação econômica.

“Inocência também sente um impacto muito grande. A gente acompanha de perto essa evolução e percebe como os investimentos estão movimentando toda a região.”

É a face mais visível do chamado Vale da Celulose, região formada por 12 municípios conectados à produção florestal, à indústria e à logística.

Criar vagas é apenas parte do desafio

A experiência de Eugênio mostra o que um emprego pode representar quando se transforma em carreira. Mas os próprios números do mercado de trabalho de Três Lagoas indicam que esse percurso ainda está longe de ser realidade para todos.

O município encerrou 2025 com 44.972 empregos formais e saldo positivo de 1.272 vagas. Parte importante das oportunidades veio do setor de serviços, impulsionado por uma indústria cuja influência vai muito além da produção direta de celulose.

Ao mesmo tempo, a taxa de rotatividade chegou a 66,4%, enquanto o tempo médio de permanência no emprego ficou em 13,9 meses.

Para quem sustenta uma família, um vínculo curto pode ter consequências concretas: dificulta assumir um financiamento, organizar despesas domésticas ou planejar os gastos com a educação dos filhos.

Por isso, a expansão do número de vagas resolve apenas uma parte do problema. A outra é criar condições para que trabalhadores permaneçam empregados, se qualifiquem e cheguem a funções com melhores salários e maior estabilidade.

Eugênio percorreu justamente esse caminho. Começou na área florestal, passou por um novo processo seletivo e chegou à operação industrial, onde trabalha atualmente.

As possibilidades dentro da cadeia são variadas: operações florestais, transporte, química, mecânica, eletrotécnica, automação, logística, segurança do trabalho e controle de qualidade.

O Senai ofereceu em Três Lagoas cursos técnicos em Mecânica, Automação Industrial, Celulose e Papel, Eletrotécnica, Logística e Química. O MS Qualifica também levou formações ligadas à produção de papel e às operações florestais.

No Estado, o programa anunciou 88 turmas destinadas a 1.420 trabalhadores, com investimento próximo de R$ 3 milhões.

A qualificação, entretanto, precisa resultar em inserção efetiva no mercado. O desafio não termina na entrega do certificado. Para avaliar o alcance dessas políticas, será necessário acompanhar quantos alunos conseguiram emprego, em quais funções foram contratados e quantos permaneceram trabalhando seis meses ou um ano depois.

Na estratégia estadual, as indústrias criam a demanda, enquanto os programas de formação tentam preparar quem já vive em Mato Grosso do Sul para ocupá-la.

Sem essa ligação, a economia pode crescer enquanto parte dos moradores continua distante justamente das vagas mais qualificadas.

Uma cidade de Mato Grosso do Sul ligada ao mercado mundial

A dimensão internacional dessa economia aparece nas exportações.

Em 2025, Três Lagoas exportou US$ 3,05 bilhões. Mais de 90% desse valor veio da celulose, enviada principalmente para a China, além de mercados como Estados Unidos, Holanda, Itália e Argentina.

A força das vendas externas demonstra o tamanho alcançado pelo setor, mas também expõe uma vulnerabilidade: a elevada dependência de um único produto.

Mudanças no preço internacional da celulose, no câmbio ou na demanda externa podem produzir efeitos sobre uma parcela significativa da economia local.

Uma das respostas em discussão é aprofundar a própria cadeia, fazendo com que mais peças, equipamentos, componentes e serviços utilizados pelas fábricas sejam produzidos dentro de Mato Grosso do Sul.

Em maio, o Governo do Estado assinou protocolo de intenções com o grupo chinês Broad Wire, que estuda instalar em Três Lagoas uma fábrica de arames utilizados no enfardamento da celulose.

O projeto ainda precisa cumprir etapas antes de se converter em investimento efetivo. A proposta, porém, exemplifica a tentativa de aproximar das produtoras fornecedores que hoje estão localizados em outros estados ou países.

“A lógica é reduzir custos de transporte para as fábricas e, ao mesmo tempo, gerar novos empregos e atividades industriais no Estado”, afirma Riedel.

A diversificação dos fornecedores também pode ter reflexos na vida de quem trabalha. Quanto maior o número de empresas integradas à cadeia, maiores as possibilidades de um profissional trocar de emprego sem deixar a cidade e de um pequeno negócio reduzir sua dependência de um único cliente.

Crescimento traz oportunidades — e também pressões

A experiência acumulada por Três Lagoas também demonstra que crescimento econômico não elimina automaticamente os problemas urbanos.

A chegada de empresas e trabalhadores aumenta a procura por moradia, pressiona o preço dos aluguéis, movimenta o trânsito e amplia a demanda sobre saúde, educação e formação profissional.

Os próprios dados sobre rotatividade mostram outro limite: criar empregos não significa necessariamente criar estabilidade.

Esse é um dos pontos centrais para a próxima etapa do desenvolvimento do município. Pequenos fornecedores precisam conseguir acesso à cadeia industrial; trabalhadores necessitam de cursos conectados às vagas realmente existentes; e o poder público precisa responder às pressões provocadas pelo crescimento sem permitir que as oportunidades econômicas sejam acompanhadas por uma deterioração dos serviços ou por um custo de vida cada vez mais difícil para a população.

Para o Governo do Estado, a estratégia é ampliar os vínculos das grandes indústrias com a economia sul-mato-grossense, aumentando as compras locais, atraindo fornecedores e formando trabalhadores para funções mais especializadas.

Isso significa olhar além dos números bilionários das exportações e dos anúncios de investimentos.

A medida concreta está também em quanto da renda continua circulando na cidade, quantos empregos deixam de ser temporários para se transformar em carreiras e quantos pequenos negócios conseguem crescer junto com as grandes fábricas.

Quando o emprego vira uma vida construída

Em Três Lagoas, a celulose já aparece muito além das chaminés e linhas de produção. Está na oficina que faz manutenção, no caminhão que transporta matéria-prima, no laboratório que acompanha processos industriais, na sala de aula que prepara técnicos e no comércio que atende quem chegou à cidade para trabalhar.

Para Eugênio, essa transformação pode ser contada de maneira ainda mais simples.

Um curso de seis meses levou ao primeiro emprego. O primeiro emprego abriu caminho para outra área. A permanência no setor trouxe renda, estabilidade e condições para construir uma família.

“Foi aqui que construí minha família”, resume.

A frase ajuda a colocar em perspectiva o desafio que permanece diante de Três Lagoas. Depois de mais de 15 anos de industrialização, o município já demonstrou a capacidade de uma grande cadeia produtiva de modificar sua economia.

A próxima etapa é fazer com que o crescimento se traduza, de maneira mais ampla, em histórias que durem tanto quanto a de Eugênio: empregos que virem carreiras, qualificação que resulte em trabalho, empresas locais capazes de crescer e uma cidade preparada para que a riqueza produzida em escala mundial também permaneça na vida cotidiana de quem mora nela.



Fonte: Assessoria

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