Governo Riedel amplia Salas Lilás e leva atendimento especializado a 12 municípios
27 setembro, 2026 - 06h19
Há mulheres que vivem em distritos, assentamentos, aldeias, propriedades rurais ou bairros afastados.
Por: Redação
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O governo Eduardo Riedel amplia a rede de proteção às mulheres no interior de Mato Grosso do Sul, que já conta com 66 Salas Lilás e prevê atendimento especializado do Ceamca em 12 municípios, com investimento de R$ 2,3 milhões. A estratégia busca reduzir deslocamentos e integrar segurança, assistência, saúde e Justiça, mas depende da manutenção de equipes e estruturas pelas prefeituras para transformar novos pontos de atendimento em proteção contínua.
Para uma mulher que vive longe dos grandes centros, pedir ajuda pode significar muito mais do que encontrar coragem para denunciar uma agressão. Pode exigir dinheiro para viajar, ausência no trabalho, deslocamento até outro município e, em cidades pequenas, até o receio de ser reconhecida ao chegar a uma delegacia.
É justamente esse percurso que a expansão da rede de atendimento tenta encurtar em Mato Grosso do Sul.
“A grande inovação da Casa da Mulher Brasileira é reunir, em um único espaço físico, todos os serviços essenciais que antes estavam dispersos pela cidade. Isso evita que a mulher precise percorrer diferentes lugares, reviver sua história repetidas vezes e enfrentar filas e burocracias para conseguir proteção”, explica a secretária executiva da Mulher de Campo Grande, Angélica Fontanari.
Na Capital, esse modelo já funciona de forma integrada. O desafio agora é fazer com que mulheres que vivem no interior também encontrem proteção sem precisar transformar a busca por ajuda em uma peregrinação.
Foi com esse objetivo que o governo de Eduardo Riedel, do Progressistas, candidato à reeleição, colocou a interiorização entre os eixos do Programa Protege, instituído em 2025. A estratégia procura aproximar serviços e articular segurança pública, assistência social, saúde, educação e sistema de Justiça nos municípios.
Uma das faces mais visíveis dessa política são as Salas Lilás, espaços reservados dentro das delegacias para o atendimento de mulheres, crianças e adolescentes vítimas de violência.
Com a inauguração da unidade de Corumbá, em maio de 2026, Mato Grosso do Sul chegou a 66 salas em funcionamento.
A diferença pode parecer simples — sair de um balcão movimentado para um ambiente reservado —, mas está diretamente ligada à forma como a vítima atravessa um dos momentos mais delicados do atendimento: contar o que sofreu.
Segundo a delegada Priscilla Anuda Quarti, assessora especializada do Núcleo Institucional de Cidadania (NIC), as salas se tornam ainda mais importantes nos municípios que não possuem Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.
“Em municípios onde não existem Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, elas asseguram que a vítima seja recebida em um ambiente reservado, humanizado e preparado para um atendimento qualificado, reduzindo a revitimização e garantindo maior privacidade”, afirma.
Ela explica que os policiais recebem capacitação e seguem protocolos institucionais padronizados. O atendimento também procura conectar a vítima às medidas protetivas de urgência e aos serviços de assistência social, saúde, apoio psicológico e demais órgãos da rede.
Para Priscilla, quanto mais cedo essa proteção chega, maiores são as possibilidades de interromper o ciclo de violência antes que ele avance para episódios mais graves ou para o feminicídio.
Mas a própria estrutura da política indica que uma sala dentro da delegacia não basta. Depois da denúncia vêm outras necessidades: orientação, acompanhamento psicológico, proteção e, muitas vezes, condições materiais para que a mulher não permaneça dependente do agressor.
É nessa etapa que entra a descentralização do Centro Especializado de Atendimento à Mulher, à Criança e ao Adolescente em Situação de Violência, o Ceamca.
Em agosto de 2025, o Governo do Estado anunciou R$ 2,3 milhões para levar a metodologia do serviço a 12 municípios: Alcinópolis, Bataguassu, Brasilândia, Cassilândia, Costa Rica, Japorã, Mundo Novo, Pedro Gomes, Porto Murtinho, Selvíria, Sonora e Rio Brilhante.
A escolha considerou os indicadores de violência de gênero e a necessidade de ampliar a rede de proteção fora da Capital.
O modelo prevê atendimento psicológico e social, orientação sobre direitos, encaminhamento para outros serviços e acompanhamento das crianças e adolescentes afetados pela violência familiar. Nos casos em que houver risco de morte, cabe à equipe organizar o encaminhamento da mulher e dos filhos para um local protegido.
A intenção é também reduzir um problema recorrente no atendimento: obrigar a vítima a circular entre diferentes instituições e repetir sucessivamente a violência que sofreu.
Em vez de fazer o boletim de ocorrência em um endereço, procurar assistência em outro e começar novamente o relato a cada porta aberta, a proposta é fazer com que os serviços atuem de maneira articulada.
A descentralização, porém, traz consigo uma dependência decisiva: a participação das prefeituras.
Pelo modelo adotado, o Governo do Estado fornece metodologia, formação, apoio financeiro e coordenação. Aos municípios cabe manter espaço, equipe, metas e recursos próprios para evitar que os serviços funcionem apenas de forma temporária.
No ano passado, o Protege passou a estimular a elaboração de um Plano de Metas Municipal de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Meninas, incorporando gradualmente objetivos e despesas da política aos orçamentos municipais.
É uma divisão de responsabilidades que permite ampliar a rede pelas 79 cidades de Mato Grosso do Sul, mas também impõe um desafio: impedir que a qualidade do atendimento fique condicionada apenas à capacidade administrativa de cada prefeitura.
Em maio de 2026, o Estado iniciou uma formação voltada a gestoras e técnicas municipais e a profissionais dos centros de referência, do Ceamca e da Casa da Mulher Brasileira. O curso foi organizado em cinco trilhas e aborda temas como violência de gênero, direitos humanos, redes de proteção e elaboração de políticas públicas.
Campo Grande já possui um modelo de integração que procura reduzir justamente o percurso enfrentado pela mulher depois da denúncia.
A Casa da Mulher Brasileira funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. O atendimento começa pelo acolhimento e pela triagem, com escuta qualificada e encaminhamento da mulher aos serviços necessários, inclusive assistência social e psicológica imediata.
A partir daí, a vítima pode registrar ocorrência e solicitar medida protetiva de urgência na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, além de receber assistência do Ministério Público, da Defensoria Pública e da Vara de Violência Doméstica.
A estrutura também possui alojamento de passagem para mulheres que necessitam de acolhimento imediato, brinquedoteca para os filhos que acompanham as mães e atendimento da Fundação Social do Trabalho, que permite encaminhamento ao mercado de trabalho. Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana também integram o serviço.
Primeira unidade do país, a Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande tornou-se referência para outras cidades brasileiras.
Desde meados de 2025, o Governo de Mato Grosso do Sul participa da gestão compartilhada da unidade com o município de Campo Grande. A coordenação administrativa permanece com a Prefeitura, por meio da Secretaria Executiva da Mulher.
Segundo Angélica Fontanari, a entrada do Estado contribuiu para aprimorar a tecnologia utilizada pela Polícia Civil, ampliar os efetivos das polícias Civil e Militar, criar a 4ª Vara de Violência Doméstica e aperfeiçoar o sistema do Promuse.
No interior, porém, criar endereços especializados resolve apenas parte do problema.
Há mulheres que vivem em distritos, assentamentos, aldeias, propriedades rurais ou bairros afastados. Para elas, a distância até um serviço público continua sendo uma barreira concreta. Em alguns casos, portanto, não é a mulher que precisa chegar à rede: é a rede que precisa conseguir chegar até ela.
Em junho de 2026, o Governo do Estado abriu edital para selecionar até 20 municípios, cada um com direito ao uso de um veículo destinado ao atendimento, acompanhamento de casos, busca ativa e articulação da rede do Protege.
Pelas regras apresentadas, as prefeituras precisam comprovar equipe técnica, adesão ao programa e estrutura mínima. A seleção considera também a existência de organismo municipal de políticas para as mulheres, conselho de direitos e plano local de metas.
A cessão inicial dos veículos será de 24 meses, com possibilidade de renovação e futura doação caso os municípios cumpram as obrigações estabelecidas.
Mais do que fornecer transporte, a proposta procura usar o veículo como incentivo para que estruturas locais deixem de depender de iniciativas isoladas e avancem para uma política permanente.
A interiorização da política de proteção às mulheres enfrenta, assim, uma questão que vai além de inaugurar salas, disponibilizar veículos ou criar novos pontos de atendimento.
É preciso fazer com que essas portas permaneçam abertas — e que, depois de atravessá-las, a mulher encontre uma rede capaz de acompanhá-la.
O próprio avanço do programa terá de ser medido por indicadores que mostrem não apenas quantas estruturas foram criadas, mas quantas mulheres conseguiram atendimento, quanto tempo esperaram, quais encaminhamentos receberam e quantas continuaram acompanhadas depois da denúncia.
“O próximo passo é consolidar o que começou a ser descentralizado: garantir equipes capacitadas, protocolos comuns, atendimento contínuo e integração entre segurança, assistência, saúde, educação e Justiça”, afirma Riedel.
É justamente aí que o endereço ganha significado.
Para a mulher que precisa sair de uma situação de violência, encontrar uma Sala Lilás, um Ceamca ou uma equipe capaz de chegar até onde ela vive não encerra o problema. Mas pode significar que, pela primeira vez naquele percurso, ela não precise enfrentar sozinha a distância entre denunciar uma agressão e encontrar proteção.
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