Escola integral começa na infância e depende da parceria entre Estado e municípios

Cooperação busca ampliar vagas, fortalecer a alfabetização e fazer com que mais crianças permaneçam na escola com estrutura e qualidade

27 setembro, 2026 - 09h31


Mato Grosso do Sul aposta na cooperação entre Estado e municípios para ampliar a educação integral desde a infância. A gestão Eduardo Riedel pretende usar a articulação construída pelo MS Alfabetiza para ampliar vagas, apoiar as prefeituras e associar maior jornada escolar à aprendizagem e à rotina das famílias.

“Não podemos ampliar apenas o tempo; precisamos ampliar oportunidades e aprendizagem.”

A advertência da presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação de Mato Grosso do Sul (Undime-MS), professora Silvia Freire, resume um dos principais desafios da educação pública no Estado: fazer com que a ampliação da jornada escolar represente, de fato, mais aprendizagem e melhores condições para crianças, famílias e profissionais da educação.

Para quem precisa trabalhar, essa discussão começa muito antes das séries finais do ensino fundamental. Começa quando uma família procura uma vaga na creche ou na pré-escola e precisa conciliar o horário da criança com a jornada de trabalho dos adultos.

Quando a vaga não existe ou o atendimento ocupa apenas parte do dia, entram em cena parentes, vizinhos, cuidadores ou outras soluções improvisadas. Uma responsabilidade que ainda recai principalmente sobre as mulheres.

Depois de ampliar o ensino em tempo integral na rede estadual, Mato Grosso do Sul enfrenta agora um desafio que depende diretamente dos municípios: estender esse atendimento às etapas concentradas nas redes municipais, começando pela infância e passando pela alfabetização e pelos anos iniciais do ensino fundamental.

Na gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, a estratégia adotada é aprofundar a cooperação com as prefeituras. O Estado entra com coordenação, formação, avaliações e apoio técnico, enquanto cada município organiza sua rede de acordo com a realidade local.

“Não se trata apenas de aumentar a permanência na escola, mas de oferecer estrutura, acompanhamento e condições para aprender desde cedo”, afirma Riedel, pré-candidato à reeleição.

O desafio começa nas primeiras vagas

A maior parte da educação infantil e dos anos iniciais está sob responsabilidade das prefeituras. A rede estadual mantém apenas uma unidade de educação infantil, em Campo Grande. Por isso, ampliar o atendimento nessas etapas depende da articulação entre municípios, Estado e União.

Em 2024, Mato Grosso do Sul atendia 93% das crianças de 4 e 5 anos. Isso significa que cerca de 7% ainda estavam fora da pré-escola.

Nas creches, destinadas às crianças de até 3 anos, a distância era maior: o atendimento chegava a 39%, diante de uma meta estadual de 60%.

A ampliação envolve mais do que abrir matrículas. Exige vagas, profissionais, alimentação, transporte e capacidade financeira dos municípios — condições que variam de uma cidade para outra e impedem que a mudança seja feita de uma só vez.

O Plano Estadual de Educação prevê justamente ampliar o acesso à educação infantil em tempo integral em articulação com as prefeituras, incluindo apoio a reformas, equipamentos, formação profissional e levantamento da demanda por creches e pré-escolas.

Na prática, aumentar a jornada também significa responder a duas necessidades que caminham juntas: permitir que as famílias tenham maior segurança para organizar sua rotina de trabalho e oferecer às crianças acompanhamento capaz de evitar que dificuldades de aprendizagem se acumulem nos primeiros anos.

“Por isso, a ampliação da jornada precisa vir acompanhada de qualidade pedagógica, alimentação, espaços apropriados, professores preparados e atividades adequadas a cada idade”, afirma Riedel.

Alfabetização aponta um caminho de cooperação

Uma experiência já em funcionamento mostra como Estado e municípios podem atuar de forma conjunta.

O MS Alfabetiza reúne o Governo de Mato Grosso do Sul, os 79 municípios e a Undime-MS em ações de formação de professores, acompanhamento pedagógico, avaliações e distribuição de materiais.

Em 2025, 66% das crianças sul-mato-grossenses estavam alfabetizadas, índice superior à meta estabelecida para o Estado. A rede estadual e 43 municípios receberam o Selo Ouro Nacional de Alfabetização.

O resultado, porém, também expõe o tamanho da tarefa que permanece: aproximadamente uma em cada três crianças ainda não havia alcançado o padrão esperado.

A continuidade da política, portanto, terá de alcançar especialmente quem ficou para trás, com atenção a territórios vulneráveis, comunidades rurais e indígenas e periferias urbanas.

Para Silvia Freire, é nesse ponto que o regime de colaboração precisa deixar de existir apenas nos documentos e chegar efetivamente à escola.

“A articulação precisa se traduzir em formação continuada dos profissionais, apoio técnico e pedagógico, materiais, avaliações e acompanhamento dos indicadores”, afirma.

Segundo ela, também são necessárias estratégias conjuntas para recompor e melhorar a aprendizagem.

“O regime de colaboração só cumpre seu papel quando a política pública chega à ponta e produz melhores condições de ensino e melhores oportunidades de aprendizagem.”

Riedel avalia que avaliações e acompanhamento comuns ajudam a identificar tanto os locais em que houve avanço quanto aqueles nos quais a resposta precisa ser reforçada.

“A execução ocorre nos municípios, mas o planejamento deixa de ser isolado”, afirma.

Ter escola integral não significa atender todos

Outro indicador revela a dimensão do próximo passo.

Em 2024, 71% das escolas públicas de Mato Grosso do Sul possuíam ao menos um estudante permanecendo sete horas ou mais na unidade. O percentual superava a meta estadual de 65%.

Quando a análise passa das escolas para os estudantes, porém, o cenário muda: apenas 17% dos alunos da educação básica pública estavam efetivamente matriculados em tempo integral, abaixo da meta de 25%.

A diferença significa que uma escola pode possuir alguma oferta integral sem que ela alcance todas as turmas ou séries.

O Estado já pactuou novas matrículas integrais com os 79 municípios. O desafio passa agora por transformar essa articulação em vagas permanentes, sustentadas por estrutura, profissionais e condições adequadas de ensino.

Silvia Freire chama atenção para o custo e a complexidade dessa expansão.

Aumentar o período da criança na escola, segundo ela, exige estrutura física, planejamento pedagógico, alimentação, transporte, profissionais qualificados, financiamento e capacidade de gestão.

As dificuldades se tornam ainda maiores em municípios pequenos e com grande área rural.

“O município não pode estar sozinho. Um regime de colaboração efetivo precisa transformar compromissos institucionais em condições concretas para garantir uma educação pública com mais equidade e qualidade”, afirma.

Mais horas precisam significar mais oportunidades

É justamente essa diferença entre permanecer mais tempo e aprender mais que deverá orientar a expansão.

O Governo do Estado não administra a maior parte das creches e escolas municipais, mas pode coordenar metas, apoiar a formação de profissionais, acompanhar resultados e construir prioridades com prefeitos e secretários de Educação.

Há municípios que precisam de novos prédios. Outros necessitam ampliar refeitórios, contratar profissionais ou reorganizar o transporte escolar.

Por isso, o caminho defendido pela gestão Riedel é utilizar a cooperação construída no MS Alfabetiza como base para avançar também na educação integral, combinando novas vagas, melhoria da aprendizagem e apoio às redes municipais.

A proposta é evitar que tempo integral signifique apenas manter a criança mais horas dentro da escola.

Para as famílias, a diferença entre uma política que existe apenas no planejamento e outra que chega à sala de aula aparece na rotina: na possibilidade de trabalhar sabendo que o filho está acompanhado, na disponibilidade de uma vaga e, sobretudo, no momento em que a criança avança para as etapas seguintes sabendo ler, escrever e compreender o que encontra pelo caminho.

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