Dentro da Suzano, Leon Feffer não era apenas o dono; ele era o mentor de uma cultura baseada em uma expressão poderosa: "Reporto-me".
06 abril, 2026 - 06h30
📍 Série: CEO – Âncora ou Alavanca?
Em 1995, vivi um breve, mas marcante capítulo da minha carreira em uma das empresas do Grupo Feffer: a SPP Nemo, braço de distribuição do grupo. Eu havia acabado de implementar o projeto do “Office Center” no Makro e fui convidado para desenhar algo semelhante para as lojas que eles iriam inaugurar, no formato da Staples norte-americana.
Trabalhar ali, no endereço histórico do bairro do Ipiranga, em São Paulo, era respirar a história de uma das maiores potências industriais do país. Mas o que mais me fascinava não eram apenas as máquinas ou o papel, mas a trajetória do homem que começou tudo.
Imagine um jovem de 18 anos desembarcando no Brasil em 1920. Leon Feffer fugia da Ucrânia, da perseguição aos judeus e dos violentos pogroms que assolavam a Europa do Leste. Chegou com a mãe e três irmãos, sem nada além da vontade de trabalhar. Estabeleceu-se como comerciante, mas sua mente operava em outra escala.
A grande virada veio em 1939. Para montar sua primeira fábrica de papel, Leon tomou uma decisão que define a diferença entre um gestor comum e um líder alavanca: ele vendeu absolutamente tudo o que tinha, incluindo a casa onde morava com a família. Ele não buscou apenas “investidores”; ele colocou sua própria existência no jogo.
A lição para o CEO: A alavanca aqui não foi o capital, mas a convicção. Leon não era um gestor de recursos; ele era o recurso. Quando o líder coloca a própria pele em jogo (o famoso skin in the game), a organização entende que fracassar não é uma opção.
Até a década de 50, a indústria global de celulose era um clube fechado do Hemisfério Norte. Os líderes eram EUA, Canadá, Suécia e Finlândia, baseados na fibra longa (coníferas como pinus), que levavam de 20 a 40 anos para crescer.

Leon Feffer e a Suzano foram os protagonistas de uma heresia tecnológica: a aposta na celulose de fibra curta (eucalipto).
Essa inovação não apenas colocou o Brasil no mapa; ela transformou o país no maior player global de celulose de fibra curta. Leon provou que a geografia, quando aliada à tecnologia e visão, é uma alavanca imbatível.
Dentro da Suzano, Leon Feffer não era apenas o dono; ele era o mentor de uma cultura baseada em uma expressão poderosa: “Reporto-me”.
Na prática, Feffer defendia que não existe “culpa do sistema”, do mercado ou dos outros. Para ele, o gestor deveria agir como se fosse o dono do problema – e também da solução.
Essa filosofia era o antídoto contra a cultura de desculpas. Talvez por essa cultura ser tão enraizada, não é coincidência que o papel mais famoso da marca tenha sido batizado de “Report”. Ele remete a relatórios e comunicação, sim, mas em sua essência, remete à prestação de contas.
A configuração de um escritório corporativo mudou muito de lá para cá. A digitalização exige muito menos papel. Muitos acreditavam que o papel deixaria de existir ou que teria seu uso reduzido e, com isso, seu comércio perderia protagonismo.
Entretanto, por mais desenvolvida que seja a tecnologia, por mais IAs novas que surjam a cada dia, as crianças ainda aprendem a ler e escrever usando lápis e papel. O papel ainda é o melhor HD para fazer download de ideias do cérebro humano.
Nossa vida é permeada por papel, do início ao fim:
Leon Feffer fez outra coisa notável: ele entendeu que um líder alavanca não pode ser um ponto único de falha. Ele preparou seus sucessores, seu filho Max e seu neto David, para continuar construindo seu legado.
Diferente de muitos fundadores que se tornam “âncoras” de suas empresas por não confiarem na próxima geração, Leon projetou a sucessão para que a Suzano continuasse sendo uma alavanca de desenvolvimento para o Brasil e para o mundo.
A história de Leon nos ensina que, seja no Ipiranga de 1939 ou no conselho de administração de 2026, a pergunta que define o sucesso continua sendo a mesma: você está aqui para relatar as circunstâncias ou para se reportar à sua capacidade de transformá-las?
E na sua liderança hoje? Você tem agido como o dono que soluciona ou como o gestor que justifica?
Você teria coragem de implementar uma cultura como a filosofia do “Reporto-me” em sua empresa?
Espero que essa história inspire sua semana. Até a próxima edição!
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