Estudo aponta que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos reduz a capacidade de crianças criarem atividades e pode afetar o desenvolvimento físico, emocional e social.
31 maio, 2026 - 19h04
© Tomaz Silva/Agência Brasil
Por: Redação Notícias do Cerrado
O som das risadas nas ruas, as partidas improvisadas de queimada, o pique-esconde ao entardecer e as brincadeiras em grupo estão cada vez mais raros na rotina infantil. Em seu lugar, celulares, tablets e videogames passaram a ocupar grande parte do tempo livre das crianças, transformando a forma como elas brincam, aprendem e se relacionam.
A mudança é percebida por quem viveu uma infância distante das telas. A auxiliar de limpeza Hozana da Silva lembra com saudade dos momentos em que as brincadeiras aconteciam ao ar livre e reuniam vizinhos e amigos. Segundo ela, atualmente é cada vez mais comum ver crianças sentadas ao lado dos pais utilizando celulares, em vez de participarem de atividades coletivas.
A reflexão ganha destaque no Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, data que chama atenção para a importância das brincadeiras no desenvolvimento infantil. Especialistas observam que o avanço da tecnologia alterou profundamente a dinâmica da infância, exigindo uma convivência cada vez maior entre o universo digital e as atividades tradicionais.
Menos criatividade fora das telas
A terapeuta ocupacional Amanda Sposito, da Universidade de São Paulo (USP), explica que diversos fatores contribuíram para essa mudança. Entre eles estão a insegurança nas cidades, a redução do convívio comunitário e a rotina intensa dos pais, que muitas vezes recorrem aos dispositivos eletrônicos para entreter os filhos dentro de casa.
Amanda é orientadora da pesquisa “Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil”, que analisou o comportamento de 14 crianças. O estudo identificou que o excesso de tempo diante das telas pode provocar uma redução gradual da criatividade e da autonomia para criar brincadeiras sem o auxílio de aparelhos eletrônicos.
Segundo a pesquisadora, muitas crianças relatam dificuldade para imaginar atividades quando estão desconectadas. Como consequência, tornam-se cada vez mais dependentes de adultos para sugerir brincadeiras ou organizar momentos de lazer, criando um ciclo em que o tédio leva novamente ao uso dos dispositivos digitais.
Impactos na saúde física e emocional
As preocupações não se limitam ao desenvolvimento da criatividade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam limites específicos para o tempo de exposição às telas de acordo com cada faixa etária.
As orientações são fundamentadas em estudos que associam o uso excessivo de dispositivos eletrônicos a problemas cognitivos, emocionais e físicos. Entre os riscos estão dificuldades de aprendizagem, alterações comportamentais, doenças oculares, problemas posturais, distúrbios do sono e exposição a situações como o cyberbullying.

Moradores do Complexo da Maré se refrescam com chuveiros e piscinas improvisadas nas ruas da comunidade .Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Especialistas também alertam que celulares e tablets não devem substituir atividades essenciais, como alimentação, descanso, convivência familiar e brincadeiras ao ar livre. O acompanhamento dos pais sobre o conteúdo consumido pelas crianças é considerado fundamental para evitar o acesso a materiais inadequados.
A lojista Edilaine Ferreira adota regras em casa para controlar o uso do celular pela filha. Ela limita o acesso a cerca de duas horas diárias após a escola e acompanha regularmente os conteúdos visualizados. A medida surgiu após situações em que conteúdos impróprios apareceram durante a navegação da criança.
Tecnologia também pode ser aliada
Apesar dos alertas, especialistas defendem que a solução não está na proibição total das telas. O desafio, segundo eles, é promover um uso equilibrado e consciente da tecnologia.
Um exemplo dessa proposta é o projeto social Gaming Park, criado em 2022 e presente na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, e em Vitória, no Espírito Santo. A iniciativa atende crianças e adolescentes de 8 a 17 anos e utiliza os videogames como ferramenta de aprendizado, inclusão social e orientação profissional.
A coordenadora técnica do projeto, Dara Coema, afirma que os jogos eletrônicos podem estimular habilidades importantes, como trabalho em equipe, comunicação e socialização. Ela ressalta que os games também funcionam como manifestações culturais capazes de contar histórias, despertar reflexões e ampliar o conhecimento dos jovens.
Segundo Dara, o principal caminho para o equilíbrio está na educação digital. Para ela, crianças e adolescentes precisam compreender desde cedo como funcionam os algoritmos das plataformas, os riscos do compartilhamento de dados, a circulação de notícias falsas e os mecanismos que incentivam o consumo contínuo de conteúdo.
A especialista defende ainda que a responsabilidade pelo uso saudável das tecnologias não deve recair apenas sobre as famílias. Na avaliação dela, empresas responsáveis pelas plataformas digitais também precisam ser fiscalizadas e estimuladas a adotar práticas que não favoreçam o uso excessivo dos dispositivos por crianças e adolescentes.
Com informações da Agência Brasil
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