Quando a indústria chega, o desafio é fazer a riqueza ficar

Em Ivinhema, expansão da bioenergia começa a redesenhar o mercado de trabalho e abre espaço para empresas locais, mas qualificação e acesso aos contratos ainda são desafios

06 setembro, 2026 - 17h41


Em Ivinhema, município com cerca de 30 mil habitantes, esse movimento ocorre em diferentes escalas.

Por: Redação Notícias do Cerrado

Às primeiras horas do dia, uma parte significativa da economia de Ivinhema começa a se movimentar sobre rodas. Todos os dias, cerca de 700 trabalhadores embarcam nos veículos da Cooperativa dos Transportadores de Angélica, a Coopertran. Aproximadamente 300 deles seguem para operações relacionadas à Adecoagro, levando motoristas, operadores e outros profissionais para uma cadeia produtiva que vai muito além dos canaviais e das estruturas industriais.

O movimento ajuda a traduzir, em uma cena cotidiana, uma discussão que costuma aparecer apenas em grandes números: o que acontece com a economia de uma cidade quando uma indústria cresce? Para João de Campos, diretor técnico da Coopertran, a resposta começa quando os investimentos deixam de ser percebidos apenas dentro dos complexos industriais e passam a alcançar fornecedores, trabalhadores e pequenos negócios.

“Quando a empresa que está chegando ou ampliando seus investimentos busca os prestadores de serviço locais, ela ajuda a desenvolver toda uma cadeia. O trabalho fica aqui, gera emprego para quem mora aqui e movimenta outros negócios da cidade”, afirma.

Uma cadeia que se forma fora dos muros da indústria

A própria história da Coopertran mostra como esse processo pode ganhar escala. Criada em 2006 com 20 cooperados, a organização chegou a 120 associados e aproximadamente 450 motoristas. A frota e os serviços envolvem caminhões, caçambas, ônibus, vans, caminhões-pipa, patrolas e outras máquinas pesadas. Mais de 90% das atividades e dos cooperados estão concentrados em Ivinhema, onde a cooperativa mantém uma das suas principais bases de operação.

Entre os contratos está a prestação de serviços para a Adecoagro, complexo agroindustrial que produz açúcar, etanol e bioenergia a partir da cana-de-açúcar. A relação representa uma parte de um movimento maior vivido por Mato Grosso do Sul, onde a expansão da bioenergia aumenta a demanda por transporte, manutenção, construção, alimentação, serviços técnicos e mão de obra especializada.

Em 2026, a Coopertran projetou uma nova frente de expansão com a construção de um posto de combustíveis próprio em uma área de 10 mil metros quadrados no Polo Industrial José Mendonça, em Ivinhema. A estrutura deverá atender à frota, aos cooperados e aos terceirizados e contribuir para a logística das operações.

Para João de Campos, aproveitar esse ciclo exige preparar quem já está no território. “Temos que aproveitar esse momento para qualificar as pessoas e fortalecer quem já está aqui. Quanto mais preparados estiverem os trabalhadores e as empresas locais, maior será a possibilidade de essas oportunidades permanecerem na nossa região”, diz.

O contrato que não chega sozinho

Para uma pequena empresa, entretanto, estar perto de uma grande indústria não significa automaticamente tornar-se fornecedora. A distância pode não ser geográfica, mas administrativa e financeira.

Grandes companhias costumam exigir regularidade fiscal, seguros, programas de segurança, treinamento, controle de qualidade, capacidade financeira e cumprimento de prazos. São procedimentos necessários para operações de maior porte, mas que podem representar um obstáculo para empreendedores acostumados a trabalhar com contratos menores.

Em abril de 2025, cerca de 60 pequenos empresários de Ivinhema participaram do Fornece+, iniciativa desenvolvida pelo Sebrae com apoio do Governo de Mato Grosso do Sul para aproximar empresas locais das demandas da Adecoagro. Cada participante teve acesso a até 50 horas de consultoria em gestão, desempenho empresarial e adequação às exigências da companhia.

O lançamento reuniu mais de 140 pessoas e identificou aproximadamente R$ 35 milhões em oportunidades potenciais de negócios. O valor, porém, não representava contratos firmados. As empresas ainda precisariam cumprir os requisitos e disputar efetivamente as contratações.

Da organização ao primeiro contrato

A Metalvale passou por esse caminho. Criada em 2015, a empresa atua nos segmentos de construção, metalurgia e comunicação visual e precisou profissionalizar processos para disputar espaço entre fornecedores de grandes companhias. Atualmente, presta serviços à Adecoagro.

Segundo a gerente financeira e de recursos humanos, Marcia Boniolo do Valle, parte importante da preparação ocorreu justamente nos bastidores, longe da assinatura de um contrato.

“O projeto Fornece+ nos auxiliou a criar ferramentas e mecanismos de organização de todos os documentos e certidões que são pré-requisitos para que possamos prestar serviços para a Adecoagro”, afirma.

O processo incluiu planejamento estratégico, análise de indicadores, acompanhamento das vendas e pesquisa de mercado. A empresa também investiu em infraestrutura, logística, tecnologia, governança e estabilidade financeira.

“Hoje, já somos prestadores de serviços para a empresa”, resume Marcia.

A experiência mostra que o efeito de um grande investimento pode se multiplicar quando pequenas empresas conseguem se adequar às exigências de uma cadeia produtiva maior. Uma empresa que melhora sua gestão para atender uma indústria também pode estar se preparando para disputar outros mercados.

R$ 225 milhões em novos investimentos

A dimensão desse mercado tende a aumentar. A Adecoagro anunciou investimento de R$ 225,7 milhões para ampliar a produção de biometano na região de Ivinhema, com a instalação de novos biodigestores. A expectativa é de criação de pelo menos 100 postos de trabalho quando os equipamentos entrarem em operação.

Antes mesmo de a nova estrutura começar a produzir, uma obra desse porte pode gerar demanda em diferentes setores. Construção civil, transporte, alimentação, hospedagem, manutenção e serviços técnicos estão entre as atividades que podem ser mobilizadas durante a implantação.

Depois da entrada em operação, aparecem outras necessidades, como eletricistas, mecânicos, operadores, técnicos ambientais e profissionais de laboratório.

A questão econômica, portanto, vai além do número de empregos diretamente criados pela indústria. Está também em saber quantas dessas necessidades poderão ser atendidas por empresas e trabalhadores da própria região.

“Quando essas compras são feitas fora de Mato Grosso do Sul, parte do investimento deixa a região. Quando o fornecedor está próximo, o dinheiro circula na cidade: paga salários, movimenta o comércio, compra peças, contrata contabilidade e sustenta outras famílias”, afirma Riedel.

O emprego que pode mudar a decisão de um jovem

A transformação também alcança uma questão que não aparece imediatamente nas estatísticas: a decisão de permanecer ou sair da cidade.

Em Caarapó, a Casa do Trabalhador e a Raízen articularam, em 2025, vagas de aprendizagem para estudantes do ensino médio, técnico ou superior. Para quem está entrando no mercado, uma oportunidade assim pode representar a primeira renda própria e o início de uma trajetória profissional sem que a pessoa precise deixar imediatamente o município.

A expansão da bioenergia também amplia o perfil das profissões necessárias. Em outubro de 2025, 18 empresas disponibilizaram 637 oportunidades em 15 municípios de Mato Grosso do Sul. As Casas do Trabalhador registraram cerca de 800 atendimentos.

Entre as vagas estavam oportunidades para motoristas, mecânicos, eletricistas, soldadores, operadores agrícolas e industriais, técnicos de laboratório, auxiliares administrativos, aprendizes e supervisores.

O retrato ajuda a mostrar que a economia da cana não se limita ao trabalho dentro da lavoura. Ao redor dela se forma uma cadeia que combina atividades agrícolas, industriais, logísticas, administrativas e técnicas.

Crescimento também traz desafios

Mas o crescimento não distribui oportunidades automaticamente.

Empresas mais estruturadas tendem a estar em melhores condições para atender às exigências de grandes contratantes. Trabalhadores com maior qualificação podem acessar funções mais especializadas, enquanto aqueles que tiveram menos oportunidades de formação correm o risco de permanecer nos postos mais instáveis.

O próprio mercado também passa a disputar mão de obra. O comércio pode ganhar consumidores com o aumento da renda, mas pode enfrentar dificuldades para contratar e também lidar com custos maiores.

Por isso, a qualificação precisa acompanhar a transformação econômica. Não basta criar cursos. É necessário aproximar a formação das vagas que efetivamente existem e garantir que trabalhadores consigam conciliar capacitação, deslocamento e jornada.

O tamanho da bioenergia no Estado

A dimensão do setor ajuda a entender por que essa discussão ganhou importância em Mato Grosso do Sul. Segundo a Biosul, a bioenergia reúne mais de 33 mil empregos diretos no Estado e movimenta aproximadamente R$ 1,3 bilhão por ano em salários.

Os números ajudam a medir o tamanho da atividade, mas não explicam sozinhos o que significa desenvolvimento para quem vive nos municípios.

Para uma família, pode ser o filho que consegue o primeiro emprego sem precisar mudar de cidade. Para um pequeno empresário, pode ser um contrato capaz de justificar a contratação de novos funcionários. Para um motorista, pode significar continuar trabalhando perto de casa.

Na Coopertran, essa dimensão aparece diariamente nos veículos que transportam centenas de trabalhadores para as operações industriais.

No fim, o desafio da expansão da bioenergia não é apenas produzir mais açúcar, etanol, energia ou biometano. É criar condições para que uma parcela cada vez maior do dinheiro gerado por essa produção permaneça circulando nos municípios.

Em Ivinhema, isso pode significar uma pequena empresa conquistando o próximo contrato. Pode estar na contratação de um trabalhador que antes precisava procurar oportunidades longe de casa. Ou ainda na expansão de uma cooperativa que começou pequena e cresceu acompanhando a transformação econômica da região.

A indústria pode ser o ponto de partida. O verdadeiro impacto, porém, aparece quando o desenvolvimento atravessa seus portões e chega às empresas, aos trabalhadores e às famílias que vivem ao redor dela.

Comentários fechados