Município que já foi conhecido como “Capital do Gado” vê o número de bovinos recuar de 755.950 para 687.415 animais, enquanto a expansão do eucalipto e da indústria de celulose redefine o perfil econômico de Ribas do Rio Pardo.
10 agosto, 2026 - 10h00
A transformação começou a ganhar força antes mesmo da chegada da atual indústria de celulose.
Por: NOTÍCIAS DO CERRADO
Ribas do Rio Pardo, no leste de Mato Grosso do Sul, registrou uma redução expressiva no número de bovinos em apenas um ano. O rebanho, que era de 755.950 cabeças, passou para 687.415, uma diminuição de 68.535 animais, equivalente a aproximadamente 9,1%. O dado chama atenção justamente em um município cuja história econômica foi durante décadas marcada pela pecuária extensiva e que chegou a ser reconhecido nacionalmente como a “Capital do Gado”.
A queda, porém, precisa ser observada dentro de um cenário mais amplo. A Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acompanha anualmente os efetivos dos rebanhos brasileiros e constitui uma das principais fontes oficiais de estatísticas da atividade pecuária.
Os números, isoladamente, não permitem atribuir a redução a uma única causa. O comportamento do rebanho pode estar relacionado a fatores próprios do ciclo da pecuária e às transformações no uso das terras. Em Ribas do Rio Pardo, entretanto, a movimentação ganha uma dimensão particular porque ocorre paralelamente à expansão da silvicultura e da indústria de celulose, atividades que passaram a ocupar espaço cada vez maior na economia municipal.
Da pecuária ao eucalipto
Durante boa parte de sua história recente, Ribas do Rio Pardo construiu sua identidade econômica em torno da criação de gado. A dimensão territorial do município favoreceu a formação de grandes propriedades rurais e a criação extensiva de bovinos. Registros históricos e reportagens da época mostram que a cidade era conhecida como “Capital do Gado”, inclusive por possuir um dos maiores rebanhos do país.
A própria memória econômica do município registra essa trajetória. A Prefeitura de Ribas do Rio Pardo descreve a agropecuária como uma atividade tradicional da economia local e destaca a criação de gado, além da presença histórica de atividades como extração de resina, carvão vegetal, serrarias e outras indústrias.
A transformação começou a ganhar força antes mesmo da chegada da atual indústria de celulose. O avanço das plantações de eucalipto e a atividade florestal já vinham alterando a paisagem rural. Em 2014, reportagem sobre a expansão do setor florestal em Mato Grosso do Sul classificava Ribas do Rio Pardo como antiga “Capital do Gado” e destacava o avanço de grandes áreas de eucalipto no município.
A nova vocação econômica
O marco mais recente dessa transformação foi o Projeto Cerrado, da Suzano. Anunciado em 2021, o empreendimento recebeu investimento de R$ 22,2 bilhões e entrou em operação em 21 de julho de 2024. Quando atingir a capacidade plena, a fábrica deverá produzir 2,55 milhões de toneladas de celulose de eucalipto por ano. A operação também passou a movimentar uma extensa cadeia florestal, industrial, logística, comercial e de serviços.
A mudança não ficou restrita aos limites da fábrica. A chegada do empreendimento provocou crescimento na demanda por fornecedores, comércio, serviços, transporte, alimentação, hospedagem e mão de obra. Em 2025, empresas locais já relatavam expansão de suas atividades acompanhando o novo ciclo econômico do município.
Em março de 2026, Prefeitura e Suzano entregaram o Plano de Desenvolvimento Municipal “Ribas 100 Anos”, elaborado a partir de diagnóstico socioeconômico e participação de diferentes setores. A iniciativa foi criada justamente para orientar o crescimento do município nas próximas décadas e demonstra que Ribas do Rio Pardo passou a discutir seu futuro econômico para além da tradicional dependência da pecuária.
Menos gado não significa fim da pecuária
A redução de 68.535 animais não significa que a pecuária deixou de ser relevante para Ribas do Rio Pardo. O município continua tendo enorme extensão territorial, propriedades rurais e atividade agropecuária. O que os números ajudam a revelar é uma possível mudança na composição e na utilização do território em um período de forte transformação econômica.
A própria história recente da cidade mostra que suas atividades econômicas nunca foram estáticas. A pecuária conviveu com o extrativismo, as serrarias, o carvão vegetal, a siderurgia e, posteriormente, a expansão da silvicultura. Agora, a produção de celulose acrescenta uma nova camada a essa trajetória.
Por isso, o recuo do rebanho merece ser analisado menos como um sinal isolado de enfraquecimento do campo e mais como um indicador de uma cidade que está mudando. Ribas do Rio Pardo ainda carrega a identidade construída em torno do boi, mas sua economia passou a ter no eucalipto, na indústria e na cadeia da celulose alguns de seus principais vetores de crescimento.
A imagem do boi branco no acesso à cidade permanece como símbolo de uma época em que Ribas do Rio Pardo era reconhecida pela força da pecuária. Ao mesmo tempo, quilômetros de novas áreas de eucalipto e a operação de uma das maiores fábricas de celulose em linha única do mundo representam o novo ciclo. Entre o passado marcado pelo gado e o presente industrial, Ribas vive uma transição econômica que já pode ser percebida nos números do seu rebanho.
Comentários fechados